"Todos os devaneios que me vão na cabeça, que me foram da cabeça e que me hão-de vir até à cabeça. Todas as mentiras e verdades que me foram impostas, todas as torturas que eu vi. Todos os momentos; um principio de vida, o meu desnascer."
Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
COMO POSSO EXPLICAR, A MIM MESMO, QUE UM AMIGO MEU MORREU?

Quando um amigo morre, perdemos um amigo ou ganhamos a felicidade de saber que ele agora pertence a uma eternidade? Se a resposta for "perde", então o que está em primeiro plano é a profunda imersão numa dor egoísta, talvez porque sejamos o animal mais pretensioso do nosso mundo e apenas damo-nos conta da nossa dor, do nosso sofrimento, daquilo que pretendemos que tenha sido "nosso" e tão somente nosso!

Se sentimos que perdemos, é porque não nos apercebemos da enorme divindade que existe em cada um de nós. É porque não damos a nós mesmos, a altíssima importância de, ao sermos uma centelha de Deus e feitos à sua imagem e semelhança, sermos este Deus em nossa forma, escolhida por Ele mesmo, para prosseguir a humanidade.

Perder, tem um significado excessivamente duro, sem a dignidade que um momento de dor deveria ter, quando alguém nosso querido parte. Eu sei que a dor nos maltrata numa dimensão muito forte e esta dor enorme percorre todo o nosso sentimento, nossas lembranças, nossa saudade e os nossos aspectos interiores transformam-se em aspectos cinzentos, perdem totalmente a cor. É como se a dor trouxesse uma chuva negra para nossa saudade. Este silêncio que toma conta da nossa dor é solene, sinistro e muitas vezes desesperante.

Eu, cada vez mais, a cada amigo que "perco", sinto nitidamente que meu tempo está indo junto com eles, que tudo o que foi vivido, saboreado e desfrutado, fez parte de um momento onde Deus nos aproximou e nos deu a grande presença de cada um deles, como presente a ser cultivado, admirado e regozijado para sempre. Como se fossemos uma equipa organizada por mãos sábias, para que disputássemos os grandes campeonatos da vida, jogando lado a lado, para vencer.

Perder é a primeira palavra e sensação que se tem, quando morre um amigo. Mas não deveria ser. O amigo é o vosso, o meu, é o nosso tempo. O amigo é parte do que percorremos para ganhar mais vida. O amigo é o merecimento da trajectória, é o orgulho, é o prémio, é o grande troféu. O amigo é aquele que aparece um dia na sua vida, vindo de não se sabe onde, vindo da vida como tu, e, pouco a pouco vai-se tornando indispensável, necessário, útil, confidente, discordante, concordante, parceiro, cúmplice. É o nosso tempo manifestando-se em outro ser humano. É o nosso tempo percorrendo caminhos e emoções tendo ao lado outro coração para partilhar deste mesmo caminho. É o tempo dele, escolhendo-te a ti, para receber o que de melhor possas merecer. O seu tempo! A sua amizade!

Estivemos juntos em alguns momentos que o nosso tempo permitiu. O senhor António, era de uma lucidez e inteligência impressionante, era espirituoso, mordaz, crítico, afável e o que era mais importante, para mim obviamente, era ele ser de uma doçura e visão como poucas vezes encontrei em outro ser humano.

Um amigo nosso se foi. Sem dor, sem sofrimento. Sentiu um mal-estar, entrou em coma... e não viu, não sentiu, não participou de nada que aconteceu consigo a partir daí. Eu não preciso nem agradecer a Deus o facto de não haver sofrimento em sua morte. Sei que Deus jamais daria sofrimento a uma alma ou a um corpo como o dele. Era a hora de Deus dar uma compensação na hora da morte. E deu! Deu uma morte serena e celestial. Sem dor!

António celebrou a vida com toda a grandiosidade espiritual que um ser possa ser merecedor. Totalmente em paz!

Definitivamente eu não perdi um amigo, a eternidade é que está em festa, com um piano branco entre as nuvens e uma plateia dos maiores músicos que compõem a eternidade, à espera dele chegar.

Há um silêncio enorme, angustiante para mim… para não causar distúrbio ao seu destino, vou rezar baixinho, somente para que Deus me ouça, abençoe o meu amigo e que o abrace muito. Quando Deus o abraçar, espero que ponha um pouco da minha imagem e semelhança neste último abraço!

 


sinto-me:

publicado por faustofigueiredo às 19:15
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